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Gordos

Ele foi olhar a caixa do correio e encontrou o milésimo panfleto de propaganda do último mês. Outra pizzaria. Continha as mesmas informações básicas: sabores, tamanhos, horário de atendimento, localização, o site e o telefone para contato.

Ela, sentada no sofá, olhou de relance e disse: Leia o resto deste post

Na mira…

 

A quem interessar possa, Leia o resto deste post

Trilha sonora

Acabo de ler uma crônica do Y.M. Barbosa sobre Trilhas sonoras, que me levou a pensar em músicas. Lá, ele fala que acha interessante quando as pessoas dizem que vida deveria ter trilha sonora.

Eu também tenho minha opinião a respeito. A minha vida, de fato, tem trilha sonora. Não é brincadeira, não! Bom, que a minha cabeça faz umas associações esquisitas nos momentos mais inapropriados, não é segredo pra ninguém. Quanto a música também, é como se estivesse ligada sempre na função random!

Ah, é! Teve até dancinha de toga no palco!

Dias atrás, estava eu a conversar com um amigo no MSN e ele me diz: “preciso ir, tenho coisas a fazer antes de dormir”. Uma frase comum, normal a quem dá tchau, sem dar tchau. Na minha cabeça instantaneamente, tocou: “não se vá, não me abandone, por favor…” Gente, que é isso? Eu nem gosto dessa música, nunca penso nela e porque surgiu na minha cabeça, sem pedir licença? Socorro!

Ou então, ontem, estava a passear pelo You Tube quando, não mais que de repente, me deparo com “Lips like sugar“, numa versão do Coldplay, que bombou nas rádios no inicio do milênio, em 2002, pra ser exata. Automaticamente, surgiu uma imagem bem vívida, clara como aquela piscina. Nós, um casalzinho de adolescentes a trocar beijos no terraço a luz da lua. Olha, que romântico! Depois de pensar um pouco, conclui que na festinha, lá dentro, devia estar tocando isso. Só pode!

E naquela festa a fantasia, uma “Segunda sem lei”, noite em que o cantor abria o microfone pra quem quisesse cantar. Estávamos acompanhadas de um músico famosinho na cidade e fã incondicional de Beatles. Ele pegou o violão, cantou: “She loves you...” E nós desafinamos no backing vocal, um: “Yeah, yeah, yeah”. É possivel, alguem desafinar um yeah? Bom, não sei, mas foi divertido. Um John Lennon e 4 mosqueteiras.

Semana passada, saí para um Pub aqui da cidade, que geralmente toca rock clássico. E, nesse dia, no palco estava uma banda que eu não conhecia. Vocal feminino, gosto muito! E, por consequência, muita Alanis Morissette, Cranberries e outras muitas músicas “de mulher”, como elucidou o garçom. Lá pelas tantas, a moça trocou o microfone de mão e o guitarrista solou um Rush, que ela acompanhou dignamente, diga-se de passagem. Dizer que não me lembrou nada, seria mentira.

A trilha da formatura mesmo, quanta gente se escabela pensando e revirando a playlist atrás de algo que as defina! Meu Deus, como assim? Eu nunca poderia ser definida em uma, única, música. Talvez, se eu tivesse tempo, tocaria todas as 4h de músicas,  com toda aquela gente meio entediada, meio sonolenta, lá embaixo. Certamente, animaria o público. Nem preciso falar que ouço de tudo um pouco, né?

Nesse contexto, não escolhi minha trilha para o auge da faculdade, o tão esperado fim dela! A música foi quem me escolheu. Recebi meu canudo ao som de “Pure Shores“, do grupo All Saints. Vocal feminino, já disse que gosto? Pois é. Daí perguntaram por que essa? Ora, porque… Porque…

Porque eu gosto, ué?! Talvez porque foge do comum a formaturas, porque quase ninguém conhece. E, porque ela ainda não fizesse parte de nenhum momento importante da minha vida e faz tão bem pra mim. Quis torná-la, oficialmente, importante! Não. Esses não são porques legais, embora verdadeiros. Porque… Porque…

Por que todo “por que” separado com acento, ou sem ele, tem de ser acompanhado por um “porque” junto e sem acento? Por que essa trilha sonora?

Ah, porque sim!

E por dentro?

Lindos, né?

Vermelhos e cobertos por chocolate. Apetitosos, de dar água na boca. Mas talvez… Só talvez,  a doçura esteja somente por fora para mascarar que por dentro, não há nada.

Morda-os…

Porém, não garanto que dentro não sejam nem tão macios ou suculentos, assim. Só um grande interior branco e sem sabor.

C’est la vie, Alice… It’s just the f*cking life, my dear!



Oração da nutricionista

Queridas nutris,

Que tenhamos, todos os dias… A paciência para ouvir, clareza para responder, destreza para resolver e a tranquilidade para suportar.

Que tenhamos o piso salarial aumentado como merecido, comensais sempre satisfeitos, chefes compreensivos, funcionários prestativos,  as férias cheguem logo e nossa PL seja sempre gorda.

Que nossos pacientes sejam disciplinados, os doces deles afastados, os brócolis sejam amados, as PA’s e HGTs controlados e os hematócritos sempre altos.

Que nossos consultórios vivam cheios, as balanças nunca sejam mentirosas, as fitas métricas não fujam junto com as canetas e os computadores não travem com a pressa.

Que os restaurantes tenham fornos combinados, passtroughs bem regulados, as coifas nunca entupam, os fornecedores sempre pontuais e que nunca falte o feijão nosso de cada dia!

Que as funcionárias sejam cuidadosas, o cloro bem dosado, nunca falte gás no meio da cocção, luz no meio da distribuição e calma no meio da confusão.

Que os comensais nunca pensem que falta sal no arroz, apreciem a sobremesa com moderação e não nos ameacem no estacionamento.

E, Deus, livrai-nos de toda toxinfecção. Amém!!!

31 de agosto: Dia do Nutricionista

Ser nutricionista é: vitaminar planos,
dar energia a sonhos, alimentar idéias.
Carin Weirich

Para comemorar o dia que homenageia a profissão que escolhi , uma menção às amigas que não escolhi. Às meninas que estiveram do meu lado e nunca mais sairam de dentro do meu peito.

Dinha, Lu, Kadi e Lise

Quem não conhece a saga desse quarteto, pode não entender o intuito. Basta saber que somos o QM, o Quadrado Mágico. Somos 4 das 5 partes do Capitão Planeta e, acima de tudo, somos amigas, irmãs, colegas de profissão, embarcamos em uma empreitada atrás da outra em busca do que somos hoje. Moramos juntas, trabalhamos juntas, brigamos juntas, sonhamos juntas, levantamos muitas taças e muitos garfos juntas.

Hoje, estamos longe fisicamente, uma em cada canto desse estado. Quando possivel, fofocamos no chat coletivo do MSN, nas visitas esporádicas e demoramos muito tempo até botar a conversa em dia…

Hoje, bateu a nostalgia. Bateu saudades. Bateu vontade daqueles nossos programas de gorda, com muito pão de queijo, chocolate quente e torta de limão.

Meninas, amotus flores!!!

Lado²

Vamos brindar a uma era que não voltará
Pontilhada por tropeços e pontos de apoio,
aos quatro anos de experiências e ternura,
inúmeras noites de rompimentos e amarulas.

Último brinde de uma etapa…
Ao rito de passagem!
Ao encontro que o destino nos reservou,
aos dias que não deixaremos para trás.

Um brinde à amizade, aos quatro elementos
a quem lutou pela felicidade equilátera
a quem suportou os mais obtusos ângulos
a quem segurou todas as pontas e as fez retas

Brindemos ao quadrado perfeito e suas hipotenusas
aos losângos e paralelepípedos, aos triângulos agudos
à maleabilidade da ligação de meninas tão diferentes
que cresceram e se tornaram mulheres tão sólidas
quanto o próprio quadrado que as uniu!

Sem vocês, essa taça eu não levantaria…

Amo muito as nutris do meu ♥: Lu, Kadi e Lise

Human[os]idade

Lá ia ela toda vestida de branco, andava devagar pelo corredor longo demais. Enquanto passava, as pessoas abanavam e sorriam. Ela, apenas, sorria de volta. Caminhava devagar, não tinha pressa de chegar. A esperavam no final do corredor e ela mal podia conter a ansiedade. Não se viam desde ontem.

A cada passo mais próxima, ela tentava encontrar uma razão para tudo que vinha acontecendo. Não encontrou. Simplesmente, algumas coisas não fazem sentido. Parou por um instante na porta do quarto, antes de bater e entrar sem cerimônia. Não havia razão em ser formal, todos a conheciam e ela os conhecia melhor do que eles podiam imaginar.

Sentiu aquele cheiro característico que só os hospitais tem, principalmente, enfermarias do SUS. Fez as mesmas perguntas de rotina, dando algumas orientações para os pacientes e seus acompanhantes.

Sempre que era possível,  segurava a mão daquelas pessoas enquanto conversavam. Mantinha um tom leve e descontraído. Leito após leito.

Sabia que tomaria outra repreensão por estar atrasada para passar o plantão, mas e daí? Não se importava. Não era justo que tivesse de correr e atender mal. Perguntas eram respondidas, dúvidas sanadas. Quando possível, os pedidos eram atendidos e os problemas resolvidos. Tudo que tivesse a seu alcance.

Após conversar com todos, se dirigiu a porta. Era sexta-feira e ela só os veria, novamente, na segunda. Tanta coisa podia mudar no fim-de-semana. Alguns poderiam não estar mais lá quando ela voltasse. Era algo que ocorria frequentemente e, nem sempre era por bons motivos. Já na porta, falou alto para que todos ouvissem:

– Meus queridos, um bom fim-de-semana pra vocês. Cuidem-se porque quando eu voltar na segunda quero ver esse hospital vazio! Todo mundo em casa tomando chimarrão com os netos!

O leito 28, Seu Luiz, sempre bem humorado retrucou lá da sua poltrona no cantinho perto do banheiro, quase escondido por trás dos tubos e aparelhos:

– Mas doutora, se for todo mundo embora, a senhora vai ficar sem trabalho!

Era irônico e bonitinho ao mesmo tempo, que um senhor com idade para ser seu avô e experiência suficiente para ser reverenciado, a chamasse de senhora. Ela era nutricionista estagiária e não doutora, mas era assim que chamavam todo mundo que vestisse branco e não fosse da equipe de enfermagem.

– Ah, Seu Luiz! Se fossem todos pra casa eu passaria a vender brócolis na feira livre do seu bairro. Aquele mesmo brócolis que o senhor se recusa a comer!

Houve uma risada, seguida de uma tosse. O inverno rigoroso engrossava sua prancheta de fichas e aumentava o tempo de permanência delas. Despediu-se novamente e antes de fechar a porta grossa e antiga de madeira, pode ouvir a esposa de seu Beto, do leito 34.

– Essa moça gosta do que faz!

Mal sabiam eles, que ela detestava. Estava ali por mera exigência acadêmica. Iniciar as quase 50 visitas do dia era um tormento. Dispor de uns minutinhos de conversa com cada um deles era mais do que dever profissional, era uma obrigação humana. Enquanto segurava suas mãos, tentava absorver o que os preocupava. Ao sair, sempre sentia o clima mais leve no quarto e mais pesado em seu peito. Não fazia mal, ela era jovem.

E embora ela chegasse ao fim do plantão exausta. Fisicamente, exausta.  Descarregaria suas aflições nos quilômetros de corrida habituais, assim que seu turno acabasse. Sol e vento sempre resolviam tudo! Não resolviam?

A dieta da lagarta

Não é que ela fosse velha, mal passara dos 20 anos, mas aprendeu muito cedo a dinâmica dos relacionamentos afetivos. Sempre fora uma das mais jovens nos círculos de amizade, mas era a opinião dela que os amigos pediam quando o assunto era seus amores e suas desilusões. Amadurecera muito cedo e sabia como os apaixonados, ou não, agiam.

Pouco tempo atrás, ganhara uma nova amiga. Uma menina que, como ela, era jovem demais pra seu conhecimento do mundo. Amanda só tinha 15 anos, mas conversava como adulta. As duas se conheceram num chat na internet, nunca se viram pessoalmente e, quem disse que isso importava?

Ela acompanhara o processo do primeiro “apaixonamento” de Amanda. Suas dúvidas e inseguranças, suas certezas e convicções. Quase podia ver os olhinhos miúdos brilhando e o sorriso meio bobo de quem ama. Ele era um menino pouco mais velho, extremamente carinhoso e maduro, que parecia poder acompanhar o ritmo do raciocínio da grande pequena adulta.

Amanda sugeriu à amiga que, como a nutricionista que era, devia prescrever às pessoas a dieta da borboleta, já que era a melhor sensação do mundo. Ambas amavam com os estômagos. Mas a experiência da mais velha dizia que não era bem assim que as coisas funcionavam.

Apaixonar-se não é engolir borboletas. É se alimentar, todos os dias com uma pequena lagarta, que pode ser um sorriso, uma mania esquisita, um poema ou qualquer coisa peculiar que o outro traga. Um dia quando menos se esperar, as lagartas, todas ao mesmo tempo, viram borboletas. Isso é se apaixonar e essa é a dieta da lagarta.