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Pra onde foi?

A falta de sono. Números, números e mais números. A tarde quente de quase-verão O longo trajeto no transporte coletivo. Sexta-feira, 19h. Corredores de um mercado cheio.

Eventos cuja sequencia são de tirar qualquer um do sério. Depois de tropeçar em caixas de leite espalhadas pelo chão, tomar um pisão no pé e tirar 5 carrinhos abandonados no meio do caminho, finalmente, consegui chegar até o freezer das carnes. Leia o resto deste post

Fora do trilho

Era impossível definir-lhe a idade. Pelo rosto de linhas finas e lábios não tão finos assim, diria-se que beirava os 20 anos. Mas seus olhos mentiam, pareciam já estar aposentados. Cansados de ver as coisas da vida, renunciavam a procurar algo que chamasse a atenção no aglomerado de gente que se espremia no metrô.

Eu também estava distraída, até o momento em que ela entrou pela porta e prendeu minha atenção. Não pela roupa que usava, vestia um jeans casual e tênis esportivos. Mais uma adolescente entre outras milhares. Comum e nada extraordinária. Não usava perfume, mas pude sentir cheiro de amaciante de roupas. O frio lá fora obrigava que usássemos casacos. Nada muito pesado, só o suficiente para nos proteger do vento que insistia em jogar-lhe uma mecha de cabelo sobre o nariz. Leia o resto deste post

Tardes de menina

Sentada diante de um volante, presa no engarrafamento há 50 minutos, ela sentiu falta daqueles dias felizes da infância.

O pai e o tio trabalhavam juntos em uma oficina automotiva, só os dois. Então, no verão, a mãe a deixava ir com o pai para o trabalho. Sair do apartamento pequeno era bom. Ia com a irmã mais nova e a prima mais nova ainda. Deviam ter no máximo 4 anos e ela era a mais velha e, portanto, a responsável pelas duas pequeninas. Talvez não, mas ela gostava de pensar que sim. Leia o resto deste post

Paradoxo

Desde menina ela corria a frente do tempo. Sempre que perguntavam, dizia que tinha um ano a mais do que seu registro de nascimento afirmava. Meses antes de seu aniversário, já assumia a nova idade. Não sabia, exatamente, quando começara com isso. O fato é que lá estava o hábito.

“Coisa de criança” diziam os mais velhos. Afinal, elas é que tem vontade de crescer logo ou de aparentar mais velhas do que eram. O problema é que seu corpo lhe desmentia. Sempre fora a menor da turma. A mais nova também. Talvez por isso, quisesse que o tempo passasse logo. Queria alcançar as amigas. Ser da mesma idade que elas e desenvolver o corpo como o delas. Escondera-se demais em calças largas, que aumentavam quadris e blusas que simulavam volume onde não existia. Uma ilusão de ótica falha, que não enganava nem o espelho, quanto mais outras pessoas. Leia o resto deste post

Desejos

Ali estava ele, segurando um bolinho de chocolate com uma vela acesa no topo, perguntando:

— E então? Faz um desejo. O que você quer?

Ela olhou para longe e pensou na vida.

Era uma menina que tinha pais incríveis e irmãos meio chatos, mas todos eles são. Tinha amigos maravilhosos, como ele que estava a sua frente. Estudava em uma escola boa por esforço próprio e tinha uma vaga idéia do que queria para o futuro. Pra que se preocupar com ele, um dia acontece e vira presente. De grego, às vezes, mas o importante era saber lidar com as conseqüências. Leia o resto deste post

Maggie

Desde sempre fora responsável, madura pra idade que tinha. Aos 3 anos, lia escrevia e sabia matemática básica. Somar afazeres e diminuir criancices.

Criada num colégio interno para meninas, visitava os pais somente nas festas de fim de ano. As férias passavam na casa de campo, onde via seus progenitores sempre em meio a pessoas como eles, entre chás e licores. Esporadicamente, um beijo de boa-noite de seu pai, era o máximo que conseguia de afeto. Encolhia-se em sua cama, com sua boneca Suzanne e dormia encharcada em lágrimas. Leia o resto deste post

Stick boy & Match Girl in love

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Stick Boy liked Match Girl,
He liked her a lot.
He liked her cute figure,
he thought she was hot.
But could a flame ever burn
…for a match and a stick?
It did quite literally;
he burned up quick. Leia o resto deste post

Fadas do Nunca

Fadas, levem-me de volta a minha Terra do Nunca.
Do nunca chorar,
do nunca sofrer,
do nunca crescer. Leia o resto deste post

Coisas de menina

Ela só tinha 12 anos! Idade difícil…

É só problema que se tem nessa fase. Não era mais tratada como criança, mas também não tinha regalias de gente adulta. Tudo era tão difícil!

A mãe dizia que não tinha mais idade pra correr com os meninos da rua, mas ela não podia beijá-los também. Não era permitido que roesse as unhas, mas também não podia pintá-las. Podia usar sutiã, mas nem pensar em blusa com decote. A parte boa ela não podia aproveitar, só sobravam as ruins. Entre essas ultimas estava: brincar com meninas.

Todas as tardes se reuniam na casa de uma delas. As mães faziam bolos de chocolate, biscoitos ou cachorros quentes. Chás com gosto de capim servidos em xícaras pequenas demais ou refrigerantes sem açúcar.

Sentavam-se no chão do quarto, com a porta fechada, “pra mãe não ouvir”. Ouvir o que? Tudo era tão chato!

Meninas são chatas! Só sabem falar dos artistas da novela e dos meninos da rua. Os artistas de novela eram pessoas que ela nunca conheceria e os meninos da rua ela conhecia desde que nasceu. Qual era a graça nesses assuntos, afinal? Então, passava as tardes sem falar nada. Respondendo, apenas, ao que lhe era perguntado.

Todas carregavam sempre dentro da mochila cor de rosa, um diário ultra-secreto. A mãe comprara um pra ela também e, de fato, ela o carregava para cima e para baixo, como mandava a etiqueta. Mas se perguntava o que as colegas escreviam de tão secreto neles. O dela estava vazio. Não escrevera nem uma linha sequer. Tudo era tão falso!

Um dia discutiam sobre que profissão seguiriam quando fossem adultas. Pra que se preocupar com isso agora? Todas queriam ser modelos, atrizes ou executivas que andassem de terno e pastas de couro. Ela mal ouvia a conversa, perdida em seus próprios pensamentos. Até que alguém a cutucou e repetiu a pergunta. Ela respondeu sem hesitar: “Eu? Vou ser uma daquelas mulheres que vendem jóias na televisão.”

As amigas deram risadinhas e não entenderam qual era a graça em não mostrar o rosto. Se era pra estar na TV, que fosse beijando galã ou com vestidos de gala. E se era pra usar jóias, queriam comprá-las, não vendê-las. Mais uma vez, as meninas a acharam esquisita, mas não perguntaram a ela o porquê da escolha. Voltaram a falar de meninos, nem sequer ouviram quando ela disse baixinho: “Pelo menos, eu poderia usar esmalte!”

A menina

O sol brilhava no céu azul de quase verão. Passarinhos voavam baixinho e as crianças corriam no campo verde. Estava quente demais para mantê-las dentro dos cubículos, que eram os apartamentos daquele conjunto habitacional. As mães sentadas em suas cadeiras de praia, nas rodas de chimarrão e fofoca do final da tarde. Um por um os pais e maridos chegavam e se uniam às conversas animadas.

Não haviam brinquedos naquele playground improvisado. O que era ainda melhor, cada criança trazia uma boneca, uma bicicleta ou uma bola de plástico e compartilhava com todos. Algumas caiam e ralavam os narizes, as mães corriam com merthiolates e bandaids de bichinhos. Um beijinho pra passar, um desejo de que sarasse antes de casar, um tapinha na bunda e uma ordem para voltar a brincar.

Não eram bonitinhos os tênis brancos?

Eram seis blocos com quatro apartamentos cada, dispostos em formato de “U” ao redor do campinho. No extremo oposto havia um valo não encanado ainda, esgoto a céu aberto. Os moradores já haviam contatado os responsáveis, mas nenhuma providência tinha sido tomada e, por esse motivo, as crianças só tinham permissão para brincar em metade do espaço. Aumentando muito o tumulto de crianças e pais que se amontoavam.

Em meio a todo esse tumulto, uma das meninas escapou a vigilância da mãe. Não tinha mais do que 3 anos, a moreninha de tênis brancos. A mãe se distraíra por alguns minutos com a filha menor, que acabara de ser mordida pelo menino do 603. Já era o quarto episódio daquela semana. O pai ralhava e ele chorava, do outro lado, a bebê chorava de susto e a mãe consolava.

Apenas alguns minutos se passaram, até que a mulher levantou a cabeça e procurou a cabeça cacheada da filha mais velha. Revirou duas vezes com os olhos e não a encontrou. Perguntava a vizinha do lado, quando ouviu ao longe um choro, seguido de um “mããããe”. O som vinha de lá, do valo de esgoto. Largou a pequena careca no colo do vizinho do 201 e correu.

As crianças pararam de correr e os adultos de falar. Todos observavam enquanto ela se ajoelhava na beira do valo, esticava os braços e tirava a menina de lá. Felizmente, não chovia há mais de uma semana. Os tênis brancos e as calças que, antes eram azuis, estavam cobertas de lama até os joelhos. Correu diretamente para o banheiro de seu apartamento no térreo, deixando para trás os murmúrios e as reclamações a prefeitura.

Os tênis novos e as calças azuis foram embalados em uma sacola plástica, indo diretamente para o lixo. Depois do banho, sentadas as três em cima da cama de casal. Todas mais calmas, a mãe perguntou a filha mais velha o que havia acontecido. Já que era óbvio que não tinha caído do barranco.

A moreninha, muito bem articulada para a idade que tinha, disse que viu uma borboleta voar e pousar numa planta dentro do valo. Quis pegá-la para mostrar a irmãzinha mais nova. Mostrando como desceu, deitou-se com a barriga para baixo e foi resvalando devagar à beirada da cama. Contou, sob o olhar perplexo da mãe, que quando chegou ao fundo, olhou para o lado e viu um sapo. Então gritou várias vezes pela mãe, chorando. Já coberta com a lama fedorenta do esgoto.

A mãe a fez sentar na cama e, então, disse que ela não devia mais fazer isso. A menina, puxando o pé descalço perto do nariz, prometeu não repetir o ato porque ainda sentia o cheiro ruim no pé. Riram abraçadas por algum tempo e, então ouviram o barulho do pai que chegava do trabalho.

O que a mãe não explicou a filha pequena demais para entender, é que essa não seria a ultima vez que ela perseguiria borboletas. Encararia desafios pra alcançar seu objetivo, mas acabaria se deparando com sapos maiores e mais feios do que aquele. Não disse também, que ela sempre estaria ali pra resgatá-la da lama, consolá-la e que, no futuro, esses episódios ainda seriam motivos de muitas risadas das duas. Apesar dos episódios feios, a vida continua.

A dieta da lagarta

Não é que ela fosse velha, mal passara dos 20 anos, mas aprendeu muito cedo a dinâmica dos relacionamentos afetivos. Sempre fora uma das mais jovens nos círculos de amizade, mas era a opinião dela que os amigos pediam quando o assunto era seus amores e suas desilusões. Amadurecera muito cedo e sabia como os apaixonados, ou não, agiam.

Pouco tempo atrás, ganhara uma nova amiga. Uma menina que, como ela, era jovem demais pra seu conhecimento do mundo. Amanda só tinha 15 anos, mas conversava como adulta. As duas se conheceram num chat na internet, nunca se viram pessoalmente e, quem disse que isso importava?

Ela acompanhara o processo do primeiro “apaixonamento” de Amanda. Suas dúvidas e inseguranças, suas certezas e convicções. Quase podia ver os olhinhos miúdos brilhando e o sorriso meio bobo de quem ama. Ele era um menino pouco mais velho, extremamente carinhoso e maduro, que parecia poder acompanhar o ritmo do raciocínio da grande pequena adulta.

Amanda sugeriu à amiga que, como a nutricionista que era, devia prescrever às pessoas a dieta da borboleta, já que era a melhor sensação do mundo. Ambas amavam com os estômagos. Mas a experiência da mais velha dizia que não era bem assim que as coisas funcionavam.

Apaixonar-se não é engolir borboletas. É se alimentar, todos os dias com uma pequena lagarta, que pode ser um sorriso, uma mania esquisita, um poema ou qualquer coisa peculiar que o outro traga. Um dia quando menos se esperar, as lagartas, todas ao mesmo tempo, viram borboletas. Isso é se apaixonar e essa é a dieta da lagarta.