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A formiga e a cigarra

Era uma vez uma formiga carpideira. Dessas cujo trabalho no formigueiro é buscar coisas. Passa o dia a caminhar no sol para juntar coisas. Não pode ver um pedacinho de madeira podre, já corre pra buscar. Uma pedrinha reluzente? Boa pra carregar. Areia!!! Lindo, vou já levantar. Leia o resto deste post

Sede

Foto: Ândria Ortiz

 

 

 

 

Poeminha do contra

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

Mario Quintana Leia o resto deste post

Robby

Olá, pessoas!

Eu sei que o blog está um tanto abandonado por esses dias, mas é por um bom motivo e esse período está com os dias contados. Logo, logo posto uns continhos novos. Até lá, deixo outra das minhas animações favoritas: Robby

Espero ter novidades boas nos próximos dias. Sigam torcendo por mim. 😀

Beijooos!

P.S.: Às vezes, não adianta só o trabalho duro. O universo tem de conspirar a favor.

Peixe

Eu sou, na verdade, um peixe
de água salgada, com certeza
não há corrente que tonta me deixe
ou impeça de nadar com destreza

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A passarinha

Sempre gostei de aves. Na visita ao zoológico, o favorito foi o avestruz. O colega da escola tinha um papagaio desbocado! E o vizinho do outro lado da rua, era um velho meio ranzinza, mas tinha um tucano. Já viu um tucano de perto? É lindo! Aves são incríveis.

Num belo dia, minha irmã ganhou uma cocota, ou caturrita, como chamam aqui no sul. Logo foi batizada de Magali Wilson. Magali porque comeu vorazmente um pedaço de melancia que lhe foi dado, embora gostasse mesmo era de bergamota. E Wilson por parecer uma bolinha de tênis, quando se acomodava para dormir. Leia o resto deste post

Marido ciumento

Enquanto ele gritava e gesticulava, como só os italianos conseguem fazer, ela esperava sentada na poltrona. A raiva fazia latejar as têmporas e enrubescer o rosto do marido. Andava de lá para cá, como se não pudesse ficar parado.

Na verdade, discursava. Qualquer político morreria para ser efusivo como ele era. Energia despendida com fervor. Palavras eram arremessadas sem piedade. Atravessando o curto espaço entre eles, chegando a poltrona onde ela se encontrava. Leia o resto deste post

O cio e o silêncio

Não tenho gatos, gosto de cachorros. Não sei como eles funcionam, esses bichanos esquisitos. Mas existe algo mais irritante do que gata no cio?

Nesse momento, posso ouvir a gata da vizinha. É uma gata bonita, cor de caramelo rajada com branco. Os olhos são… Bem, não sei qual a cor deles, nunca cheguei próximo o suficiente para saber. Agora ela está em algum lugar perto demais, naquele miado irritantemente constante. Um lamento interminável de quem implora pela atenção de algum macho que esteja por perto. Qualquer macho!

Meu cachorro grande e delgado, pêlo chocolate e lindos olhos alaranjados, também parece não gostar muito da súplica da gata. Está a latir descontrolado há muito tempo. O que me leva a crer que ela está longe de seu alcance ou já teria sido estraçalhada. Talvez ele esteja mandando a felina calar a boca ou talvez só debochando da coitada. Não sei.

Já fui lá tentar acalmá-lo, não funcionou. Usei voz de comando, não funcionou. Mandei ir para a casinha, não funcionou. Ele, realmente, parece mais irritado do que eu! Pudera, sua audição é muitas vezes mais aguçada que a minha.

Estamos assim: a gata a sofrer, o cachorro a responder e eu a lamentar… Daí o cachorro late, a gata mia e eu tento não pensar nos dois. Eu sofro, o cachorro lamenta e a gata responde. Um ciclo interminável! Tentando não pensar, racionalizei ainda mais. Tentando não ouvir, senti.

Senti pena da gata. Pobre miserável! Não sei como elas funcionam, bichos esquisitos. Deve trazer algum resultado esse lamento todo. Em dado momento, um gato de rua qualquer, atende a seu chamado.

E por falar nisso… Deixa-me ouvir.

É! Acho que isso acaba de acontecer por aqui. Só há o silêncio agora. O cachorro também já não mais se faz presente, deve ter ido dormir. Rouco e exausto. Só fiquei eu aqui a pensar…

Pensar atrapalha os instintos, mas velhos hábitos não se perdem! Por mais que a raça humana evolua, talvez sejamos os mais irracionais do reino animal. Quantas gatas bípedes existem? E tudo o que eu mais quero é: silêncio!

A menina

O sol brilhava no céu azul de quase verão. Passarinhos voavam baixinho e as crianças corriam no campo verde. Estava quente demais para mantê-las dentro dos cubículos, que eram os apartamentos daquele conjunto habitacional. As mães sentadas em suas cadeiras de praia, nas rodas de chimarrão e fofoca do final da tarde. Um por um os pais e maridos chegavam e se uniam às conversas animadas.

Não haviam brinquedos naquele playground improvisado. O que era ainda melhor, cada criança trazia uma boneca, uma bicicleta ou uma bola de plástico e compartilhava com todos. Algumas caiam e ralavam os narizes, as mães corriam com merthiolates e bandaids de bichinhos. Um beijinho pra passar, um desejo de que sarasse antes de casar, um tapinha na bunda e uma ordem para voltar a brincar.

Não eram bonitinhos os tênis brancos?

Eram seis blocos com quatro apartamentos cada, dispostos em formato de “U” ao redor do campinho. No extremo oposto havia um valo não encanado ainda, esgoto a céu aberto. Os moradores já haviam contatado os responsáveis, mas nenhuma providência tinha sido tomada e, por esse motivo, as crianças só tinham permissão para brincar em metade do espaço. Aumentando muito o tumulto de crianças e pais que se amontoavam.

Em meio a todo esse tumulto, uma das meninas escapou a vigilância da mãe. Não tinha mais do que 3 anos, a moreninha de tênis brancos. A mãe se distraíra por alguns minutos com a filha menor, que acabara de ser mordida pelo menino do 603. Já era o quarto episódio daquela semana. O pai ralhava e ele chorava, do outro lado, a bebê chorava de susto e a mãe consolava.

Apenas alguns minutos se passaram, até que a mulher levantou a cabeça e procurou a cabeça cacheada da filha mais velha. Revirou duas vezes com os olhos e não a encontrou. Perguntava a vizinha do lado, quando ouviu ao longe um choro, seguido de um “mããããe”. O som vinha de lá, do valo de esgoto. Largou a pequena careca no colo do vizinho do 201 e correu.

As crianças pararam de correr e os adultos de falar. Todos observavam enquanto ela se ajoelhava na beira do valo, esticava os braços e tirava a menina de lá. Felizmente, não chovia há mais de uma semana. Os tênis brancos e as calças que, antes eram azuis, estavam cobertas de lama até os joelhos. Correu diretamente para o banheiro de seu apartamento no térreo, deixando para trás os murmúrios e as reclamações a prefeitura.

Os tênis novos e as calças azuis foram embalados em uma sacola plástica, indo diretamente para o lixo. Depois do banho, sentadas as três em cima da cama de casal. Todas mais calmas, a mãe perguntou a filha mais velha o que havia acontecido. Já que era óbvio que não tinha caído do barranco.

A moreninha, muito bem articulada para a idade que tinha, disse que viu uma borboleta voar e pousar numa planta dentro do valo. Quis pegá-la para mostrar a irmãzinha mais nova. Mostrando como desceu, deitou-se com a barriga para baixo e foi resvalando devagar à beirada da cama. Contou, sob o olhar perplexo da mãe, que quando chegou ao fundo, olhou para o lado e viu um sapo. Então gritou várias vezes pela mãe, chorando. Já coberta com a lama fedorenta do esgoto.

A mãe a fez sentar na cama e, então, disse que ela não devia mais fazer isso. A menina, puxando o pé descalço perto do nariz, prometeu não repetir o ato porque ainda sentia o cheiro ruim no pé. Riram abraçadas por algum tempo e, então ouviram o barulho do pai que chegava do trabalho.

O que a mãe não explicou a filha pequena demais para entender, é que essa não seria a ultima vez que ela perseguiria borboletas. Encararia desafios pra alcançar seu objetivo, mas acabaria se deparando com sapos maiores e mais feios do que aquele. Não disse também, que ela sempre estaria ali pra resgatá-la da lama, consolá-la e que, no futuro, esses episódios ainda seriam motivos de muitas risadas das duas. Apesar dos episódios feios, a vida continua.

A joaninha

Conheço muita gente esquisita. Gente que adotou como mascote uma lagartixa no teto, gente que ouve dinossauros amarelos e até gente que alimenta aranhas, mas pela primeira vez na vida, fiz amizade com uma joaninha.

Um insetinho daqueles redondinhos, vermelho com pintinhas pretas. Ela me encontrou em um dia ensolarado de certo veranico de maio. Era bastante simpática e propôs uma troca justa. Se eu a ajudasse a encontrar a saída daquele recinto, me concederia um desejo. Um único desejo.

Antes de voar ela, ainda, posou pra uma foto

Eu que não tinha nada a perder, a não ser um dos meus preciosos minutos de eterna inimiga dos relógios, vi uma oportunidade de sair de dentro da minha cabeça e conversar com alguém razoável.

Não precisei pensar muito a respeito, o que eu queria era absurdamente óbvio. Também precisava que alguém mostrasse a saída. Um conjunto solução para um problema, cuja resposta era tão aparente que a gente se recusa a aceitar. Algo que se arrastaria indefinidamente se não fosse uma criaturinha tão disposta a ajudar um ser muito pensante. Ou muito intuitivo.

Sabiamente, a joaninha aconselhou que tivesse cuidado com meus desejos, depois que minhas cordas vocais vibrassem, não haveria retorno. Teimosamente, retruquei que qualquer palavra vocalizada tem tanto poder quanto um pensamento recorrente.

Pois bem, ela disse, se tens certeza disso, nada posso fazer a não ser dizer que não demorará. A resposta a equação não-algébrica, não-numérica, não-ilusória e não-hipotética, deveria se apresentar logo. Senti medo. Dito isto nada mais nos prendia. Abri a janela, a amiguinha abriu as asinhas, desejou força e seguiu seu caminho.

Em 3 dias, as nuvens encobriram o sol e o meu mundo desabou…