Caso do acaso

Tarde quente na cidade, o outono vinha se achegando aos poucos naqueles dias. O sol convidava para um passeio. Uma roda de violão e chimarrão, na grama do Redenção. Formaram um grupo grande que nas tardes de domingo gostavam da alegria naqueles gramados verdinhos. Difícil era encontrar uma árvore que já não abrigasse um casal, um carrinho de bebê ou uma roda de amigos como a deles.

Trocavam idéias, falavam sobre amenidades. O clima, as baladinhas da noite anterior, as músicas que ouviam. Trocavam mais do que isso. Às vezes, telefones e beijos. Porém esta não era uma delas. Por mais que a loirinha, amiga da amiga do colega de apartamento, estivesse dando um mole. Algo aconteceu para interromper isto.

A tal da loirinha disse que nunca tinha ouvido uma certa música da qual ele falava empolgado. Ele enfiou um dos fones no ouvido dela e o outro no dele. Sabe, né? Pra ficarem mais pertinho. Táticas de sedução que nunca falham. Funcionavam na adolescência e não deixariam de ter efeito no pós-vestibular. Comentou cada um dos trechos e fez com que ela prestasse atenção num certo solo de guitarra. Por acaso, lembrou-se de “outro alguém”. Tinham ouvido, vezes sem fim, aquela mesma música, assim, desse mesmo jeito. Dividindo os fones, bem pertinho.

Passado é passado.

A menina, então, pediu para que ele passasse via Bluetooth a música que ela tinha A-MA-DO!!!. Não era muito o seu estilo, mas o que não se faz por um gatinho a mais, não? Pois é. Ambos ligaram os dispositivos dos celulares. Ele fez a busca na rede para encontrar qual seria o dela e teve a nítida sensação de alucinação. Como assim?

Ali na tela dele apareceu aquele apelido que há muito não via. “Prathida”. Refez a busca e lá estava novamente. Seria muita coincidência que alguém usasse aquela palavra estrangeira, tão conhecida dele para se autodenominar. Se o seu Bluetooth captou o sinal dela é porque estava por perto. Menino das tecnologias, sabia tudo a respeito. Levantou-se e vasculhou com os olhos o extenso parque. Havia, por ali, muita gente e pouco tempo. Não encontrou. Pensando rápido, escreveu uma mensagem no centro da palma de sua mão, tirou uma foto e enviou para ela, perguntando: “Princesa?”

Neste mesmo momento, em algum lugar um telefone tocou.

Ela havia esquecido o Bluetooth ligado. Não entendia muito do assunto, mas uma vez disseram-lhe que era perigoso. Hackers podiam invadir seu aparelho e fazer buscas indesejadas em seus contatos. Verdade ou não, preferia não arriscar. Ligava e desligava conforme precisava. Achou estranho que alguém quisesse compartilhar uma foto com ela, mas ficou curiosa e abriu. Um tremor, um frio familiar no estômago e uma interjeição. Surpresa, ela respondeu da mesma forma. Uma foto com a palma da mão, onde escreveu: “De onde?” Se fosse quem ela esperava, saberia responder.

Ele enviou a imagem e ficou esperando resposta. Um minuto, dois se passaram.

Esperou ansiosa e quando o celular tocou e fez o download de outra imagem, ela desfaleceu. Os amigos ao redor dela, pularam de onde estavam para atendê-la. Alguém saiu gritando por ajuda, a amiga do lado correu em direção a uma padaria e voltou com uma garrafa d’água. Muitas vozes ao redor, muita luz e uma estranha vontade de não abrir os olhos. Odiava desmaiar. Primeiro porque a sensação era péssima, segundo porque odiava assustar as pessoas.

Ele avistou alguém correndo e uma movimentação de gente numa árvore do outro lado da fonte de água que estava atrás dele. Só podia ser ela: a rainha da confusão!

Correu até o bolo de gente e a encontrou. Como a cereja de um bolo que caiu no chão. O cabelo grudado no rosto, já que alguém havia molhado sua nuca e seus pulsos. A cabeça pendia pra trás, apoiada por uma bolsa de lona colorida e uma menina segurava seus pés para cima. A blusa torta por cima do corpo magricela. Não agüentou e riu alto. Pediu licença para os amigos dela e se ajoelhou. Ouviu alguém perguntar: “Tu és médico?” O qual respondeu com um “uhum” ligeiro. Chamou-a pelo nome e afagou a bochecha molhada. Nada. Chamou de novo, ela resmungou. Até que ela abrisse os olhos.

Ela só ouvia um murmúrio de vozes no fundo da cabeça. Ainda não tinha força de vontade suficiente para acordar. Alguma coisa puxava pra baixo. Era estranho desmaiar, parecia que duas pessoas a dividiam. Uma com uma lanterna em seus olhos e a outra a puxar a barra de sua saia para trás. Era mais fácil ficar onde estava do que encarar aquela luz toda. Nesse momento, ouviu uma voz alta e clara a chamar seu nome. Então, abriu os olhos. E quase desmaiou novamente.

Ele ria. Muito e muito alto. Ela piscava. Uma, duas, dez vezes. Primeiro atônita, depois enraivecida. Sentou-se e disse: “Tá rindo do que?” Mais ele ria. Ela levantou meio tonta ainda e falou meio insegura: “Obrigada, gente, já estou melhor e vou pra casa.”
O grupo tinha aumentado. Todos estavam meio perplexos com o que acontecia e a deixaram ir. Ao passar, esbarrou numa menina loira, pediu desculpas ligeiro e saiu quase correndo dali.

Antes que pudesse fugir, uma mão a segurou pela cintura a puxando. Pensando que ia desmaiar novamente, parou. Outra mão surgiu serpenteando pela sua cintura. Eram mãos quentes que a fizeram se virar. Ele sorria daquele jeito meio torto, charmoso e agora sem aparelhos dentários.

– Não lembro de nenhum conto de fadas em que a Bela Adormecida calce as botas de 7 léguas e fuja do príncipe.

– Principe? Que prin…

O beijo!

Em qualquer história, esse seria o final… Mas não na minha!

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Sobre ÂndriaOrtiz

"Ela não era tola. Mas como quem não desiste de anjos, fadas, cegonhas com bebês, ilhas gregas e happy ends cinderelescos, ela queria acreditar." Caio Fernando Abeu

Publicado em segunda-feira, 21 21UTC outubro, 2013, em crônicas. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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