Pra onde foi?

A falta de sono. Números, números e mais números. A tarde quente de quase-verão O longo trajeto no transporte coletivo. Sexta-feira, 19h. Corredores de um mercado cheio.

Eventos cuja sequencia são de tirar qualquer um do sério. Depois de tropeçar em caixas de leite espalhadas pelo chão, tomar um pisão no pé e tirar 5 carrinhos abandonados no meio do caminho, finalmente, consegui chegar até o freezer das carnes.

Olhei as pizzas congeladas, passei pelas lasanhas de isopor e ignorei os peixes sem gosto. Porque peixe bom, só na peixaria da esquina. Quando então, cheguei nos cortes de frango. Comparei os preços entre marcas e enquanto tentava decidir se levava o filé de peito ou o sassami congelado individualmente, algo aconteceu.

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Uma mãozinha macia segurou a minha. Olhei pro lado e para baixo. Lá estava ela, uma menina de 5, no máximo, 6 anos. Cabelos compridos cacheados, bochechas redondas e um sorriso largo de dentes miudos. De leite, certamente. E então, me disse:

—  Oi, linda!

Meio sem entender, respondi um “oi” meio tímido. Antes de poder dizer qualquer coisa além disso, ela seguiu:

—  Eu só vim aqui pra dizer que eu te achei linda! Maravilhosa mesmo! E que agora eu tenho que ir. Meus pais estão chamando, mas não te preocupa, eu sei onde eles estão. Tchau!

Soltou minha mão e sumiu! Literalmente, sumiu! Procurei a blusa rosa e a pequena bolsa preta pendurada a tiracolo, mas não a vi mais. Segui para a fiambraria. Nada dela. Padaria. Nem sinal. Caixa. “Necas de pitibiriba”, como diria minha mãe. Pra onde ela foi?

Ouvi sua voz e comentei com o “meu mais amado dos amados”, que empurrava o carrinho logo atrás de mim:

— Olha, deve ser a minha mais nova amiga elogiando mais alguém!

Ele riu e disse:

—  Acabas de ganhar teu dia, né?

É. Pode ser. Talvez ela tenha simpatizado mesmo comigo. Com minha cara amarrada, a pele lustrosa pelo calor e os pés, mal servindo nas sapatilhas de tão inchados. Ainda acho que me confundiu com alguém que ela conhece, mas talvez… E só talvez, as crianças não vejam nosso lado feio. Não sei.

Só sei que meu mau humor se foi. Dissipou. Sumiu! Vai ver, minha admiradora o levou com ela. Ou o espantou com seu riso de criança. Sei lá.

No fim, nem o frango eu pus no carrinho, mas e daí?

Eu sou maravilhosa!

 

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Sobre ÂndriaOrtiz

"Ela não era tola. Mas como quem não desiste de anjos, fadas, cegonhas com bebês, ilhas gregas e happy ends cinderelescos, ela queria acreditar." Caio Fernando Abeu

Publicado em quinta-feira, 1 01UTC novembro, 2012, em crônicas e marcado como , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

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