Fora do trilho

Era impossível definir-lhe a idade. Pelo rosto de linhas finas e lábios não tão finos assim, diria-se que beirava os 20 anos. Mas seus olhos mentiam, pareciam já estar aposentados. Cansados de ver as coisas da vida, renunciavam a procurar algo que chamasse a atenção no aglomerado de gente que se espremia no metrô.

Eu também estava distraída, até o momento em que ela entrou pela porta e prendeu minha atenção. Não pela roupa que usava, vestia um jeans casual e tênis esportivos. Mais uma adolescente entre outras milhares. Comum e nada extraordinária. Não usava perfume, mas pude sentir cheiro de amaciante de roupas. O frio lá fora obrigava que usássemos casacos. Nada muito pesado, só o suficiente para nos proteger do vento que insistia em jogar-lhe uma mecha de cabelo sobre o nariz.metrô

Usava 3 anéis. Uma pedrinha azul minúscula num solitário de aro delicado no mindinho, poderia ser uma recordação da infância. Talvez não conseguisse se desvencilhar dessa aura infantil que trazia. No dedo do meio uma aliança grossa de aço inoxidável e no indicador uma pedra grande que lembrava topázio, destoando bastante do resto. A outra mão, eu não conseguia ver, estava do lado de lá, defendendo o corpo pequenino contra os saculejos do vagão que a jogavam para todos os lados.

Ficou ali encostada contra uma porta, olhando para as luzes dos postes que passavam ligeiros por nós e pensando sabe-se-lá-no-que. Ou não pensando em nada, o que era bastante provável. Não parecia triste, nem melancólica como os adolescentes gostam de fingir que são. Era uma mulher-menina. Adulta. Sozinha. Tranquila.

Algumas estações depois, desembarcou. Entrou e saiu por aquela mesma porta em que estivera apoiada, sem olhar uma única vez para os lados. Partiu levando consigo aquele aspecto cinzento que era só seu. Afastou-se deixando comigo uma inquietação. Foi embora e levou junto, também, a minha paz.

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Sobre ÂndriaOrtiz

"Ela não era tola. Mas como quem não desiste de anjos, fadas, cegonhas com bebês, ilhas gregas e happy ends cinderelescos, ela queria acreditar." Caio Fernando Abeu

Publicado em segunda-feira, 17 17UTC setembro, 2012, em crônicas e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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