Tardes de menina

Sentada diante de um volante, presa no engarrafamento há 50 minutos, ela sentiu falta daqueles dias felizes da infância.

O pai e o tio trabalhavam juntos em uma oficina automotiva, só os dois. Então, no verão, a mãe a deixava ir com o pai para o trabalho. Sair do apartamento pequeno era bom. Ia com a irmã mais nova e a prima mais nova ainda. Deviam ter no máximo 4 anos e ela era a mais velha e, portanto, a responsável pelas duas pequeninas. Talvez não, mas ela gostava de pensar que sim.

A oficina tinha um pátio comprido demais para as pernas curtas. Lá longe, ficava o grande portão de ferro, o qual não tinham permissão de chegar perto. Do outro lado, estava uma avenida larga e bastante movimentada, território proibido para as meninas. Carros e ônibus aceleravam e jogavam aquela fumaça fedorenta no ar.

Brincando de ser criança...

Brincando de ser criança...

Numa tarde, o tio cansado das três crianças correndo e gritando ao redor dele, pôs uma caixa de geladeira na grama debaixo dos eucaliptos para que brincassem. Para as crianças criativas, em segundos, a velha caixa se transformara numa casa luxuosa. Beberam chás em xícaras vazias e serviram o melhor banquete de capim com margaridas que os convidados imaginários já comeram em suas vidas.

 O vento era refrescante, o cheiro do eucalipto era forte e, por mais perto que estivessem da grande avenida, não se ouvia o barulho dos carros nem o cheiro dos escapamentos. Tudo que sabiam era que havia silêncio e tranquilidade no fundo do pátio. Além de toda a sorte de brinquedos que uma criança pode querer.

Gravetos, caixas de papelão, baldes, flores e pedrinhas. Bancos velhos de carros antigos, volantes quebrados e câmaras gigantes de pneus de caminhão. Estas últimas serviam para pular! Tudo era brincadeira! Quantas tardes passaram se revezando para pular nos pneus como se fossem camas elásticas? Inúmeras!

Não lembrava, exatamente, que dia da semana era. Devia ser uma sexta, pois levara vários dias até ir com o pai e a irmã para o trabalho novamente. Ou talvez, com a chuva, a mãe não as tenha permitido passar o dia a céu aberto. Quando chegou lá, os olhos escuros procuraram, imediatamente, a caixa. Ela estava lá, no mesmo lugar, embaixo do grande eucalipto. Porém, estava destruida. A chuva destruiu o grande palacete das meninas. O papelão estava molenga e úmido.

— Meninas não podem sentar em coisas molhadas e geladas — lhes dissera o pai.

A afirmação não fazia o menor sentido para as pequenas que tentaram argumentar, mas de nada adiantou. Fizeram um bico comprido, a mais nova ensaiou um choro, mas logo o tio surgiu com uma panela velha e furada, três colheres enferrujadas e feijões. E lá se foram as meninas, a afastar as britas do chão atrás da terra escura. Fariam uma plantação de feijões e serviriam uma bela feijoada de margaridas para os amigos imaginários. Sentadas debaixo do eucalipto.

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Sobre ÂndriaOrtiz

"Ela não era tola. Mas como quem não desiste de anjos, fadas, cegonhas com bebês, ilhas gregas e happy ends cinderelescos, ela queria acreditar." Caio Fernando Abeu

Publicado em segunda-feira, 30 30UTC abril, 2012, em crônicas e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. Andria minha princesa, amei tuas tardes da menina,me transportei para teus cantinhos mágicos. Saudades da tia JU

  2. Ândria:
    Muito obrigada por proporcionar este momento lindo, achei o máximo poder reviver um pouco dessa infância maravilhosa da qual não tem como esquecer.
    Me emocionei muito com a riqueza de detalhes e emoção, te expressaste muito bem a cada palavra, e confesso não tenho palavras para dizer o que estou sentindo agora!!
    Mais uma vez MUITO OBRIGADA!!!
    Beijos

  3. 😀
    É a Isabella se manifestando, Lígia! Louca pra pular em pneus também!
    Espero que as crianças de hoje e as do amanhã também tenham lembranças como essas nossas!
    A gente precisava de tão pouco pra ser feliz. Qualquer coisa virava brincadeira com um pouquinho de imaginação. Como a Giovanna que brincava com um cabide de roupas em um almoço daqueles lá na vóini N! Era tão gostoso! Éramos felizes e não fazíamos ideia disso! 😀
    Obrigada, querida! Por participar da minha infância!
    Bjooooks!

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