Paradoxo

Desde menina ela corria a frente do tempo. Sempre que perguntavam, dizia que tinha um ano a mais do que seu registro de nascimento afirmava. Meses antes de seu aniversário, já assumia a nova idade. Não sabia, exatamente, quando começara com isso. O fato é que lá estava o hábito.

“Coisa de criança” diziam os mais velhos. Afinal, elas é que tem vontade de crescer logo ou de aparentar mais velhas do que eram. O problema é que seu corpo lhe desmentia. Sempre fora a menor da turma. A mais nova também. Talvez por isso, quisesse que o tempo passasse logo. Queria alcançar as amigas. Ser da mesma idade que elas e desenvolver o corpo como o delas. Escondera-se demais em calças largas, que aumentavam quadris e blusas que simulavam volume onde não existia. Uma ilusão de ótica falha, que não enganava nem o espelho, quanto mais outras pessoas.

...pressa...

De boca fechada, podiam até pensar que era 2 anos mais nova do que era, mas ao conversar com a menina, até pensavam que talvez fosse mais velha do que dizia. Um paradoxo. Criança gênio, super-dotada. Bullying de crianças invejosas. Assim, aprendera a se defender. A prever os movimentos alheios e contornar situações. Embora não soubesse disso na época, todas as situações difíceis lhe serviriam no futuro. Passou a entender melhor o comportamento humano e, até mesmo, das pedras no tabuleiro.

Já adulta, seguia com o velho hábito. Em outubro, quando lhe perguntaram a idade dissera “25”. Só depois percebera que faltavam 5 meses para que, de fato, fizesse aniversário. Ficara imaginando até quando teria pressa de crescer.  Sempre se achava nova demais para algo. Até os 12 anos, não podia viajar sozinha, sem autorização. Antes dos 18 anos, não podia dirigir. E mesmo aos 25 anos… Opa! Aos 24,  não permitiam que entrasse em certas festas “balonê”, típicas dos anos 80.

Os dias passavam ligeiro e quando pensava no último aniversário, parecia ontem. Mas mesmo assim, queria mais idade, mais experiências e mais histórias pra contar. Será que algum dia seria como a avó que, por medo da idade da loba, passara mais de  uma década dizendo ter 39 anos? Só tomou, consciência de que já não era tão jovem no dia que disse:

– Pois é, pareço novinha mas não sou.

Ao que lhe responderam sem pestanejar:

– Olha… Também não és tão novinha assim, pareces exatamente a idade que tens.

Surtou. Passou a usar cremes anti-idade, perdeu peso e comprou lentes de contato. Todos lhe diziam que rejuvenecera. Achara ótimo, mas ao lhe perguntarem a idade que tinha, lá estava o velho hábito. Porque era isso que ela gostava de ser, nem velha nem nova, queria ser um eterno paradoxo.

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Sobre ÂndriaOrtiz

"Ela não era tola. Mas como quem não desiste de anjos, fadas, cegonhas com bebês, ilhas gregas e happy ends cinderelescos, ela queria acreditar." Caio Fernando Abeu

Publicado em sábado, 15 15UTC outubro, 2011, em crônicas e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. O de sempre: um texto maravilindo!
    Sabe que eu tenho essa mania de sempre me considerar mais velha?! Tipo, quando tinha 25 se alguém me perguntasse eu dizia “vou fazer 25″… Mas tô parando com isso.

  2. As vezes tu é tão parecida comigo que até penso que sou que escrevo as coisas dormindo… 😀
    bjoks, lindonaa!

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