Arquivo mensal: setembro 2010

Trilha sonora

Acabo de ler uma crônica do Y.M. Barbosa sobre Trilhas sonoras, que me levou a pensar em músicas. Lá, ele fala que acha interessante quando as pessoas dizem que vida deveria ter trilha sonora.

Eu também tenho minha opinião a respeito. A minha vida, de fato, tem trilha sonora. Não é brincadeira, não! Bom, que a minha cabeça faz umas associações esquisitas nos momentos mais inapropriados, não é segredo pra ninguém. Quanto a música também, é como se estivesse ligada sempre na função random!

Ah, é! Teve até dancinha de toga no palco!

Dias atrás, estava eu a conversar com um amigo no MSN e ele me diz: “preciso ir, tenho coisas a fazer antes de dormir”. Uma frase comum, normal a quem dá tchau, sem dar tchau. Na minha cabeça instantaneamente, tocou: “não se vá, não me abandone, por favor…” Gente, que é isso? Eu nem gosto dessa música, nunca penso nela e porque surgiu na minha cabeça, sem pedir licença? Socorro!

Ou então, ontem, estava a passear pelo You Tube quando, não mais que de repente, me deparo com “Lips like sugar“, numa versão do Coldplay, que bombou nas rádios no inicio do milênio, em 2002, pra ser exata. Automaticamente, surgiu uma imagem bem vívida, clara como aquela piscina. Nós, um casalzinho de adolescentes a trocar beijos no terraço a luz da lua. Olha, que romântico! Depois de pensar um pouco, conclui que na festinha, lá dentro, devia estar tocando isso. Só pode!

E naquela festa a fantasia, uma “Segunda sem lei”, noite em que o cantor abria o microfone pra quem quisesse cantar. Estávamos acompanhadas de um músico famosinho na cidade e fã incondicional de Beatles. Ele pegou o violão, cantou: “She loves you...” E nós desafinamos no backing vocal, um: “Yeah, yeah, yeah”. É possivel, alguem desafinar um yeah? Bom, não sei, mas foi divertido. Um John Lennon e 4 mosqueteiras.

Semana passada, saí para um Pub aqui da cidade, que geralmente toca rock clássico. E, nesse dia, no palco estava uma banda que eu não conhecia. Vocal feminino, gosto muito! E, por consequência, muita Alanis Morissette, Cranberries e outras muitas músicas “de mulher”, como elucidou o garçom. Lá pelas tantas, a moça trocou o microfone de mão e o guitarrista solou um Rush, que ela acompanhou dignamente, diga-se de passagem. Dizer que não me lembrou nada, seria mentira.

A trilha da formatura mesmo, quanta gente se escabela pensando e revirando a playlist atrás de algo que as defina! Meu Deus, como assim? Eu nunca poderia ser definida em uma, única, música. Talvez, se eu tivesse tempo, tocaria todas as 4h de músicas,  com toda aquela gente meio entediada, meio sonolenta, lá embaixo. Certamente, animaria o público. Nem preciso falar que ouço de tudo um pouco, né?

Nesse contexto, não escolhi minha trilha para o auge da faculdade, o tão esperado fim dela! A música foi quem me escolheu. Recebi meu canudo ao som de “Pure Shores“, do grupo All Saints. Vocal feminino, já disse que gosto? Pois é. Daí perguntaram por que essa? Ora, porque… Porque…

Porque eu gosto, ué?! Talvez porque foge do comum a formaturas, porque quase ninguém conhece. E, porque ela ainda não fizesse parte de nenhum momento importante da minha vida e faz tão bem pra mim. Quis torná-la, oficialmente, importante! Não. Esses não são porques legais, embora verdadeiros. Porque… Porque…

Por que todo “por que” separado com acento, ou sem ele, tem de ser acompanhado por um “porque” junto e sem acento? Por que essa trilha sonora?

Ah, porque sim!

Anúncios

Pretérito perfeito

Eu perdi, eu não vi, eu nasci… Na época errada!

Queria ter assistido Mattew Broderick “Curtindo a vida adoidado” na estréia nos cinemas. Ou cantar com Jon Cryer (muito antes de ser um pai divorciado e barrigudinho em Two and a Half Man) tentando impressionar a personagem de Molly Ringwald em  “A garota de rosa shocking”. E até, imitar o Tom Hanks pulando no piano gigante de “Quero ser grande”.

Eu poderia ter suspirado pelo Tom Cruise em “Ases Indomáveis”, em vez de assistí-lo reprisar, incontáveis vezes, na Sessão da Tarde. Eu não sou louca pelo Tom Cruise, nem o acho o mais gostosão de todos, mas eu gosto de motocicletas e raybans! Além do que, minha adolescência poderia ter passado sem o Nick Carter e seus amigos.

Eu era pra ter virado noites com Billy Idol, na década de 80 com Dancing with myself ou namorado ao som de “Eyes without a face”. Embora, meia de lurex, permanente no cabelo e esmalte fluor não sejam os meus favoritos, não me importaria muito, se tivesse sido ‘escandalizada’ com a Madonna e seus sutiãs pontudos.

Os anos 80, assim como toda e qualquer época, tiveram seus altos e baixos. Poderia passar horas aqui dizendo o que queria ter visto em seu lançamento. Podem achar bobagem, mas sinto que perdi uma parte da cultura POP. São as velhas saudades do que não vi, de um passado que não tive por uma questão biológica.

Eu perdi o pretérito perfeito!

P.S.: Pra compensar, vou dormir ouvindo “I melt with you” do Modern English e da próxima vez, falo do que perdi nos anos 70.

Despropague-se, Propaganda

Propaganda de primeira,
funciona como prosa.
muita coisa verdadeira
e muita coisa mentirosa

O povo é influenciado,
compra o que se manda
com prazo prorrogado,
tudo que vê na propaganda

Propaganda de carros caros,
muitos eu nem lembro o nome
em um país com poucos milionários,
famílias inteiras morrem de fome.

Propaganda atinge toda gente:
Adultos,crianças,adolescentes,
querem produtos que os deixem contentes
tirando dinheiro do povo que nem sente

Boneca que fala, escada que dobra
gente que se dobra a quem só os enrola
fácil pra quem vende e depois só cobra;
ruim pro trabalhador, que paga com esmola.

E aí, ja vai virando uma ironia,
pois a grande maioria é enganada
e continua vivendo seu dia a dia
Como se não acontecesse nada!

Autoria de:

Essa é uma pequena parte dos integrantes do #SarauVirtual. Já falei sobre isso, tempos atrás, lembra? Essa é nossa mais nova criação coletiva. Nasceu agorinha, ainda está fresquinha! Aproveitem, sigam-nos no Twitter e todos eles tem blogs que eu recomendo e muuuito a leitura!!!

É bom encontrar jovens talentos tão queridos como esses e mais do que isso, são os amigos mais nordestinos (ou quase isso, né Mau? ;D) que eu poderia ter. Adoro todos!

Beijo, pessoas!

E por dentro?

Lindos, né?

Vermelhos e cobertos por chocolate. Apetitosos, de dar água na boca. Mas talvez… Só talvez,  a doçura esteja somente por fora para mascarar que por dentro, não há nada.

Morda-os…

Porém, não garanto que dentro não sejam nem tão macios ou suculentos, assim. Só um grande interior branco e sem sabor.

C’est la vie, Alice… It’s just the f*cking life, my dear!



Sozinha

Estremeço de prazer por entre a novidade de usar palavras que formam intenso matagal. Luto por conquistar mais profundamente a minha liberdade de sensações e pensamentos, sem nenhum sentido uti lit ário:

sou sozinha, eu e minha liberdade.

É tamanha a liberdade que pode escandalizar um primitivo, mas sei que não te escandalizas com a plenitude que consigo e que é sem fronteiras perceptíveis. Esta minha capacidade de viver o que é redondo e amplo – cerco-me por plantas carnívoras e animais legendários, tudo banhado pela tosca e esquerda luz de um sexo mítico.

Vou adiante de modo intuitivo e sem procurar uma idéia:

sou orgânica.

E não me indago sobre os meus motivos. Mergulho na quase dor de uma intensa alegria; e para me enfeitar nascem entre os meus cabelos folhas e ramagens…

Clarice Lispector

Tudo novo!

Hoje é 21 de setembro!

Ok! Grande coisa!

Hoje não há nada de muito importante, mas ontem… Ah, o 20 de setembro!!! Data máxima para meu povo gaúcho. Dia de exaltar a ânsia de um povo por liberdade. A luta, o sofrimento, mas nunca a desistência. Foram 10 anos de Revolução Farroupilha e, ontem, foi dia de homenagear nossos soldados farrapos.

Como eu não podia deixar passar, também foi o dia do lançamento da pedra fundamental do estádio do imortal tricolor Grêmio Foot-ball Porto-Alegrense, que mesmo não estando em boa fase, também não desistirá.

Além de todos esses motivos de festa, caso não tenhas percebido,  estamos de casa nova. Uma mudança de endereço do consultório. Pintamos as paredes,  trocamos os assoalhos e agora estamos aqui. Clean e minimalista. Demorou um pouco e ainda não está como quero e, infelizmente, meu tempo anda curto. Tenho que dar um jeito na vida, né?!

Pois é… Novo domínio para um blog que ganha um novo formato. Apartir de agora, além das crônicas, vou postar tudo que der vontade! Vídeos, citações, sonhos malucos. Nem sempre serão bem elaboradinhos como gosto, visados e revisados, menos rebuscaDinha. #piadainterna Enfim, provavelmente, sejam mais dinâmicos e verdadeiros. Mais, tipo  assim, como eu!

Mulher de falas, nem sempre pensamentos. ;D

Então para comemorarmos tudo isso, poderia ter escrito um texto digno, mas na máxima aquela de que uma imagem vale mais do que mil palavras, os deixo com 2 vídeos para apreciarem sem moderação!!!

O primeiro é o Hino do Rio Grande do Sul. Como há várias pessoas que acessam o blog que não são daqui, já aviso: não esperem o formato normal de hinos. Aqui no estado, o hino faz parte do nosso dia-a-dia. É uma composição para ouvir e cantar sempre!

O segundo é Céu, Sol, Sul, Terra e Cor. Que é uma das músicas mais lembradas pelos gaúchos e uma das minhas favoritas! Interpretada por vários artistas, nos mais diversos cantos do estado. Lembrando que Joca Martins, gravou na Charqueada São João e o Grupo Tholl, gravou sua parte no Chafariz das Nereidas, centro de Pelotas.

Assistam, porque isso é poesia, meu povo!

Hino Sul Rio-Grandense por Wilson Paim>

Céu, Sol, Sul, Terra e Cor – Clipe Teledomingo da RBS TV

Meus amores

Assisti uma vez, um comediante dizendo que o cérebro do homem contém várias caixas, onde eles organizam seus pensamentos. Cada caixa é especifica para um assunto e eles nunca deveriam se encostar ou se misturar. Com a mulher também é mais ou menos assim, mas nosso depósito fica dentro do peito, onde é mais quentinho e seguro.

Meus amores serão sempre meus. Mesmo que já não estejam comigo, estão comigo.  Todos trouxeram coisas boas e, mesmo as más, no final foram boas. Fizeram parte da expansão de minha memória. E devemos aprender sempre!

C:/Meus amores/Passado/Meu bem.zip

Quando passam a ser só memórias, eu os guardo numa pastinha no drive C, de coração. Lá dentro estão as fotos, as músicas que ouvimos juntos (ou não), os lugares que vimos, os cheiros que senti, as alegrias, as conversas de MSN, os emails que trocamos. Revejo tudo, separo por categorias, organizo datas, releio, re-ouço e re-assisto. Está tudo lá.

Antes de salvá-los, deleto os arquivos duplicados e as brigas, já as lembranças boas deixo bem a vista. Depois de tudo arrumadinho, compacto tudo e coloco a senha. Estarão lá guardados e, às vezes, quando bater a saudade e os visitarei.

– Mas precisa de senha?

Precisa. Quando eu morrer, quem vier olhar o que eu guardava dentro de mim, não vai ter acesso. Meus amores são meus e de mais ninguém. Quem olhasse de fora não entenderia o quanto os amei, ou melhor, entenderia como quisesse e não como merecem.

Quem olhasse de fora, não daria as cores certas às imagens, elas seriam pálidas e turvas. Não dançaria como dancei nossas músicas, seriam monótonas e estáticas. Não sentiria o sabor de verdade, seriam insossas e frias. Meus amores merecem mais do que isso.

Nem seus nomes lhes interessa. Meus amores são meus e sempre serão. Só darei um aviso! Não se assuste com o número de arquivos que encontrar ou com os apelidinhos carinhosos, ou nem tanto assim. Preste atenção no número de megabytes que encontrar, nas datas de visualização do arquivo e, se possível, no número de vezes que o arquivo foi visualizado. Só assim saberás quais foram os meus melhores.

O cio e o silêncio

Não tenho gatos, gosto de cachorros. Não sei como eles funcionam, esses bichanos esquisitos. Mas existe algo mais irritante do que gata no cio?

Nesse momento, posso ouvir a gata da vizinha. É uma gata bonita, cor de caramelo rajada com branco. Os olhos são… Bem, não sei qual a cor deles, nunca cheguei próximo o suficiente para saber. Agora ela está em algum lugar perto demais, naquele miado irritantemente constante. Um lamento interminável de quem implora pela atenção de algum macho que esteja por perto. Qualquer macho!

Meu cachorro grande e delgado, pêlo chocolate e lindos olhos alaranjados, também parece não gostar muito da súplica da gata. Está a latir descontrolado há muito tempo. O que me leva a crer que ela está longe de seu alcance ou já teria sido estraçalhada. Talvez ele esteja mandando a felina calar a boca ou talvez só debochando da coitada. Não sei.

Já fui lá tentar acalmá-lo, não funcionou. Usei voz de comando, não funcionou. Mandei ir para a casinha, não funcionou. Ele, realmente, parece mais irritado do que eu! Pudera, sua audição é muitas vezes mais aguçada que a minha.

Estamos assim: a gata a sofrer, o cachorro a responder e eu a lamentar… Daí o cachorro late, a gata mia e eu tento não pensar nos dois. Eu sofro, o cachorro lamenta e a gata responde. Um ciclo interminável! Tentando não pensar, racionalizei ainda mais. Tentando não ouvir, senti.

Senti pena da gata. Pobre miserável! Não sei como elas funcionam, bichos esquisitos. Deve trazer algum resultado esse lamento todo. Em dado momento, um gato de rua qualquer, atende a seu chamado.

E por falar nisso… Deixa-me ouvir.

É! Acho que isso acaba de acontecer por aqui. Só há o silêncio agora. O cachorro também já não mais se faz presente, deve ter ido dormir. Rouco e exausto. Só fiquei eu aqui a pensar…

Pensar atrapalha os instintos, mas velhos hábitos não se perdem! Por mais que a raça humana evolua, talvez sejamos os mais irracionais do reino animal. Quantas gatas bípedes existem? E tudo o que eu mais quero é: silêncio!

Salto 15

Imagine uma mulher assim: morena, olhos castanho-amendoados, puxadinhos nos cantos. Seios do tamanho certo, nem grandes nem pequenos. Cintura que cabe a curva do braço, bunda redonda e empinadinha. Pernas bem torneadas, fortes quase musculosas, pés pequenos. Mãos fininhas, unhas vermelhas e compridas o suficiente pra deixar marcas gostosas na pele. Cabelos negros e longos, franjinha na testa, 1,60m de altura, peso difícil de estimar. Essa é minha amiga Vivi.

Ela andava tão devagar pela rua que as pedras do caminho se endireitavam pra que ela não tropeçasse em seu salto 15. Óculos escuros, bolsa maxi no ombro e vestido vermelho. Não sei aonde ia, mas também não importava. É o tipo de mulher que não precisa de motivos pra ficar bonita, apenas é…

E pronto!

Eu seguia atrás, também andava devagar, mas pela simples curiosidade de ouvir os comentários dos homens que se espalhavam pelas calçadas, meros desocupados e, até mesmo, os ocupados que sempre arrumavam tempo pra admirar um par de pernas em minissaias. Era um tanto masoquismo ouvir os comentários deselegantes e assobios ritmados. Resolvi atravessar a rua, não resolveu. Vivi chamava atenção mesmo de longe.

Lá ia ela sem pressa nenhuma, parecia alheia ao furor que causava. Parou em frente a uma vitrine de jeans. Analisou algum deles e seguiu em frente. Não sei porque parou ali, nunca a vi usar jeans. Mais adiante, uma vitrine de sapatos, olhou por alguns instantes e entrou. Resolvi entrar na sorveteria em frente à loja de sapatos e esperar ela sair. Puro masoquismo! Acomodei-me em uma mesa em que pudesse olhar o interior da loja e lá estava ela com duas atendentes a seu dispor.

Tentei enumerar aqueles homens todos que ainda estavam nas calçadas, era bem possível que esperassem também, somente para poder olhar por mais 30 segundos a exuberância de Vivi quando saísse pela porta. Iriam esperar bastante a julgar pelo número de pares de sapatos que se acumulavam. Talvez eu também fosse uma desocupada como eles, mas era irresistível.

Algum tempo se passou, terminei meu sorvete e passei no caixa. Saí na porta no exato momento em que Vivi saía da loja com duas sacolas. Olhou para os lados, pôs os óculos e olhou diretamente pra mim. Tirou os óculos novamente, abriu um sorriso e desceu o degrau da porta. Também sorri e esperei acomodando a bolsa no ombro.

Os homens se alvoroçaram novamente, pude ouvir novamente os assobios e o murmurinho quando ela atravessou a rua, vindo a meu encontro. Era uma rua do centro antigo com muitos pedestres e poucos automóveis a circular por ali. Ainda bem, já que dois carros pararam pra que ela passasse. Em qualquer outro lugar seria acidente na certa, porque nenhum dos dois motoristas teve pressa de partir. Vivi chegou perto. O vento remexeu seu vestido leve e pude sentir o perfume adocicado. Sorria com os olhos quando perguntou:

– Você estava aí?

– Resolvi tomar um sorvete enquanto esperava você escolher.

– Podia ter entrado e ajudado, como fiquei em dúvida… Comprei os dois! Salto 15! Toma… Um é seu!

Com isso ergueu as duas sacolas na altura da cintura e as baixou novamente com uma risada . Passou-me uma delas e me beijou. Um beijo curto e profundo.

– Já disse que seu gloss de morango é grudento, Vivi?

Ela sorriu novamente. Segurou minha mão livre e caminhou rebolante ao meu lado. Imaginei se a ausência de assobios ou comentários seria surpresa ou inveja, mas logo desisti. Passei a prestar atenção nela, que falava alegremente dos sapatos incríveis que tinha comprado. Essa é minha amiga Vivi.

Pessegueiro

Ela era alguém que nunca vi ao vivo. Não passa de pixels numa tela e de pensamentos aleatórios. Mas uma dor tão palpável por um motivo tão comum e ao mesmo tempo tão individual. A dor dela é ele… Meu ele!

Ele que, hoje, é minha dor também. Duas dores diferentes. Sinto falta do que ele poderia ter feito e ela sente falta do que achou que ele fez! Isso nos faz tão desconfortavelmente semelhantes. Temos algo em comum, nós o temos. Nosso ele!

Noite passada, sonhei compessegueiro em flor ela! Uma novidade pra mim... Contra todo o bom senso existente, sonhei com ela. Alguém que anda na contramão da minha via. Eu que sempre estive a léguas de distância do corpo dele, enquanto ela sempre esteve longe de seus pensamentos. Por muito tempo, uma teve o que a outra queria e nenhuma das duas jamais teria.

Sonhei que estávamos em uma varanda sem parapeito, no segundo andar de uma casa antiga. Sentadas no chão a balançar as pernas no vazio. Uma estranha sensação de distância, apesar da proximidade dos corpos. Observávamos o horizonte, através dos galhos de um pessegueiro em flor. Uma luz confortante em tons de amarelo, rosa e púrpura. O calor do sol a aquecer a pele e o vento a desanuviar a raiva latente.

Era o pôr-do-sol que eu planejara assistir com ele. E, no entanto, nunca sonhei… Assisti com ela! Sentada a seu lado, percebi que não era ciúme, era territorialismo. Não sei se trocamos palavras, não reconheceria sua voz. Não sei se ela sentiu o que senti. Nem, ao menos sei, se ela pensa em mim. Sei, apenas, da sensação de harmonia que senti ao encontrar uma alma irmã. Hoje, acordei livre… Acordei em paz!