Arquivo mensal: agosto 2010

Oração da nutricionista

Queridas nutris,

Que tenhamos, todos os dias… A paciência para ouvir, clareza para responder, destreza para resolver e a tranquilidade para suportar.

Que tenhamos o piso salarial aumentado como merecido, comensais sempre satisfeitos, chefes compreensivos, funcionários prestativos,  as férias cheguem logo e nossa PL seja sempre gorda.

Que nossos pacientes sejam disciplinados, os doces deles afastados, os brócolis sejam amados, as PA’s e HGTs controlados e os hematócritos sempre altos.

Que nossos consultórios vivam cheios, as balanças nunca sejam mentirosas, as fitas métricas não fujam junto com as canetas e os computadores não travem com a pressa.

Que os restaurantes tenham fornos combinados, passtroughs bem regulados, as coifas nunca entupam, os fornecedores sempre pontuais e que nunca falte o feijão nosso de cada dia!

Que as funcionárias sejam cuidadosas, o cloro bem dosado, nunca falte gás no meio da cocção, luz no meio da distribuição e calma no meio da confusão.

Que os comensais nunca pensem que falta sal no arroz, apreciem a sobremesa com moderação e não nos ameacem no estacionamento.

E, Deus, livrai-nos de toda toxinfecção. Amém!!!

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31 de agosto: Dia do Nutricionista

Ser nutricionista é: vitaminar planos,
dar energia a sonhos, alimentar idéias.
Carin Weirich

Para comemorar o dia que homenageia a profissão que escolhi , uma menção às amigas que não escolhi. Às meninas que estiveram do meu lado e nunca mais sairam de dentro do meu peito.

Dinha, Lu, Kadi e Lise

Quem não conhece a saga desse quarteto, pode não entender o intuito. Basta saber que somos o QM, o Quadrado Mágico. Somos 4 das 5 partes do Capitão Planeta e, acima de tudo, somos amigas, irmãs, colegas de profissão, embarcamos em uma empreitada atrás da outra em busca do que somos hoje. Moramos juntas, trabalhamos juntas, brigamos juntas, sonhamos juntas, levantamos muitas taças e muitos garfos juntas.

Hoje, estamos longe fisicamente, uma em cada canto desse estado. Quando possivel, fofocamos no chat coletivo do MSN, nas visitas esporádicas e demoramos muito tempo até botar a conversa em dia…

Hoje, bateu a nostalgia. Bateu saudades. Bateu vontade daqueles nossos programas de gorda, com muito pão de queijo, chocolate quente e torta de limão.

Meninas, amotus flores!!!

Lado²

Vamos brindar a uma era que não voltará
Pontilhada por tropeços e pontos de apoio,
aos quatro anos de experiências e ternura,
inúmeras noites de rompimentos e amarulas.

Último brinde de uma etapa…
Ao rito de passagem!
Ao encontro que o destino nos reservou,
aos dias que não deixaremos para trás.

Um brinde à amizade, aos quatro elementos
a quem lutou pela felicidade equilátera
a quem suportou os mais obtusos ângulos
a quem segurou todas as pontas e as fez retas

Brindemos ao quadrado perfeito e suas hipotenusas
aos losângos e paralelepípedos, aos triângulos agudos
à maleabilidade da ligação de meninas tão diferentes
que cresceram e se tornaram mulheres tão sólidas
quanto o próprio quadrado que as uniu!

Sem vocês, essa taça eu não levantaria…

Amo muito as nutris do meu ♥: Lu, Kadi e Lise

Na ponta da língua…

– Humpf… Engraçadinho!!!

– Muito quieta…
– Hum? Que disseste?
– Não combina contigo. Faz 10 minutos que não dizes palavra alguma!
– Estava pensando…
– Isso também não combina contigo! Quando isso aconteceu?
– Aconteceu o que? Do que estás falando, afinal?
– Se lembro bem, tuas idéias iam direto para a ponta da língua. Mulher de falas, nunca pensamentos…
– Engraçadinho!!!

Noite passada

Queria poder te ver. Que minha pele pudesse sentir o conforto de teus braços e minhas mãos pudessem tocar o que vejo de olhos fechados. Ver nem sempre traz o abraço e um carinho pode ser mais torturante do que um simples adeus. Mas noite passada, te imaginei, e hoje, eu estou conformada…

Queria poder te esquecer. Que minha imaginação pudesse parar de formar tuas imagens e meus ouvidos pudessem fingir que nunca ouviram teu sussurrar. Esquecer nem sempre traz a felicidade e uma lembrança pode ser mais reconfortante do que um telefonema inesperado. Mas noite passada, te abstraí, e hoje, eu estou controlada…

Queria não ter que acordar. Que minha mente não necessitasse do conforto que os sonhos trazem e meus olhos não se abrissem com o clarear na janela. Acordar nem sempre traz o repouso e uma noite bem dormida é mais rara do que o cantar do galo na cidade. Mas noite passada eu sonhei contigo e, hoje, eu trago a fé renovada…

Queria não precisar dormir. Que meu corpo não necessitasse de repouso e meus olhos não se fechassem de exaustão ao final de cada dia. Dormir nem sempre traz sonhos e pesadelos me assustam mais do que qualquer realidade. Mas noite passada, dormi contigo e, hoje, eu sonho acordada…

Queria que fosse assim. Que minhas vontades fossem fáceis de saciar e meus desejos tivessem ordens decrescentes. Ter nem sempre traz alegrias e satisfação não se compra na esquina. Mas noite passada, estive desperta e, hoje, dormirei sossegada…

Queria que não fosse assim. Que minhas saudades fossem sanadas e meus impulsos fossem fáceis de lidar. Sentir nem sempre traz satisfação e alegrias não se encontram na esquina. Mas noite passada, consegui dormir e, hoje, acordei aliviada!

Human[os]idade

Lá ia ela toda vestida de branco, andava devagar pelo corredor longo demais. Enquanto passava, as pessoas abanavam e sorriam. Ela, apenas, sorria de volta. Caminhava devagar, não tinha pressa de chegar. A esperavam no final do corredor e ela mal podia conter a ansiedade. Não se viam desde ontem.

A cada passo mais próxima, ela tentava encontrar uma razão para tudo que vinha acontecendo. Não encontrou. Simplesmente, algumas coisas não fazem sentido. Parou por um instante na porta do quarto, antes de bater e entrar sem cerimônia. Não havia razão em ser formal, todos a conheciam e ela os conhecia melhor do que eles podiam imaginar.

Sentiu aquele cheiro característico que só os hospitais tem, principalmente, enfermarias do SUS. Fez as mesmas perguntas de rotina, dando algumas orientações para os pacientes e seus acompanhantes.

Sempre que era possível,  segurava a mão daquelas pessoas enquanto conversavam. Mantinha um tom leve e descontraído. Leito após leito.

Sabia que tomaria outra repreensão por estar atrasada para passar o plantão, mas e daí? Não se importava. Não era justo que tivesse de correr e atender mal. Perguntas eram respondidas, dúvidas sanadas. Quando possível, os pedidos eram atendidos e os problemas resolvidos. Tudo que tivesse a seu alcance.

Após conversar com todos, se dirigiu a porta. Era sexta-feira e ela só os veria, novamente, na segunda. Tanta coisa podia mudar no fim-de-semana. Alguns poderiam não estar mais lá quando ela voltasse. Era algo que ocorria frequentemente e, nem sempre era por bons motivos. Já na porta, falou alto para que todos ouvissem:

– Meus queridos, um bom fim-de-semana pra vocês. Cuidem-se porque quando eu voltar na segunda quero ver esse hospital vazio! Todo mundo em casa tomando chimarrão com os netos!

O leito 28, Seu Luiz, sempre bem humorado retrucou lá da sua poltrona no cantinho perto do banheiro, quase escondido por trás dos tubos e aparelhos:

– Mas doutora, se for todo mundo embora, a senhora vai ficar sem trabalho!

Era irônico e bonitinho ao mesmo tempo, que um senhor com idade para ser seu avô e experiência suficiente para ser reverenciado, a chamasse de senhora. Ela era nutricionista estagiária e não doutora, mas era assim que chamavam todo mundo que vestisse branco e não fosse da equipe de enfermagem.

– Ah, Seu Luiz! Se fossem todos pra casa eu passaria a vender brócolis na feira livre do seu bairro. Aquele mesmo brócolis que o senhor se recusa a comer!

Houve uma risada, seguida de uma tosse. O inverno rigoroso engrossava sua prancheta de fichas e aumentava o tempo de permanência delas. Despediu-se novamente e antes de fechar a porta grossa e antiga de madeira, pode ouvir a esposa de seu Beto, do leito 34.

– Essa moça gosta do que faz!

Mal sabiam eles, que ela detestava. Estava ali por mera exigência acadêmica. Iniciar as quase 50 visitas do dia era um tormento. Dispor de uns minutinhos de conversa com cada um deles era mais do que dever profissional, era uma obrigação humana. Enquanto segurava suas mãos, tentava absorver o que os preocupava. Ao sair, sempre sentia o clima mais leve no quarto e mais pesado em seu peito. Não fazia mal, ela era jovem.

E embora ela chegasse ao fim do plantão exausta. Fisicamente, exausta.  Descarregaria suas aflições nos quilômetros de corrida habituais, assim que seu turno acabasse. Sol e vento sempre resolviam tudo! Não resolviam?

Mal estar

Ela passou o dia inteiro com um mal-estar. Sentia-se pesada, enjoada e seu estômago estava revirado. Provavelmente, fosse a gastrite que resolvera voltar ao ataque.  A velha companheira que não a deixava em paz. Tomou seus remédios, mas eles não surtiram efeito imediato.

Ficou a imaginar se havia comido algo que pudesse ter causado o estrago. Nada lhe ocorreu, mesma rotina de sempre. Nada diferente havia acontecido. A água era filtrada, os vegetais bem higienizados e os cozidos bem cozidos. Improvável, mas não impossível.

Foi dormir, esperando que acordasse bem no dia seguinte. Não aconteceu. Acordou com a mesma sensação. Apesar da falta de vontade, obrigou-se a comer algo. Foi trabalhar, voltou, dormiu e acordou.

Dormiu e acordou outras tantas noites e a sensação não a deixava. A sexta-feira chegou e com ela o fim-de-semana. Recusou o convite para a happy hour. Bebidas alcoólicas não a fariam se sentir melhor. Dormiu cedo, acordou tarde.

Sábado à tarde, estava deitada no sofá da sala quando o celular tocou. Um novo alguém a convidando para jantar. Ela aceitou. Não podia deixar de comer, apesar do mal estar. Explicou rapidamente a situação e pediu que fosse um restaurante que houvesse opções saudáveis. Desligou o telefone e foi para o banho.

Pontualmente, às 20h o carro parou no meio-fio. Ela entrou. No restaurante, pediu peixe grelhado e saladinha, para beber suco de mamão. Ela conversava olhando naqueles olhos de cor indefinida. Talvez fossem verdes com leve tom de mel ou fossem de um castanho muito claro e com um leve tom alaranjado. O assunto fluía tranqüilo e os sorrisos escapavam por entre os lábios. Saíram de mãos dadas.

Ele a deixou em casa, estimou melhoras e a beijou docemente. Ela o retribuiu, desejou boa noite e desceu do carro. Ele esperou que ela estivesse do lado de dentro da casa, para dar a partida no carro. Ela esperou estar dentro de casa, para soltar o suspiro que estava preso na garganta.

E lá estava ele novamente… O maldito mal estar! Não o havia sentido a noite inteira. Foi quando um pensamento lhe cruzou a mente e ela entendeu. Entendeu tudo! Era tão óbvio! E tão triste.

As novas lagartas de cor indefinida, batalhavam seu espaço dentro do estomago dela. Mas as borboletas brancas não estavam dispostas a ceder seu lugar, conquistado ao longo de tanto tempo. Haviam declarado guerra e ela não sabia quem venceria. Decidiu que não queria saber. Deixaria as coisas acontecerem. Alguém acabaria vencendo, ou morreriam todas. Ela não tinha uma resposta para isso, nem queria ter.

Engoliu seus remédios. Tomou seu copo d’água. Passou a mão na barriga e disse para si mesma:

– Que vença o mais forte.

Coisas de menina

Ela só tinha 12 anos! Idade difícil…

É só problema que se tem nessa fase. Não era mais tratada como criança, mas também não tinha regalias de gente adulta. Tudo era tão difícil!

A mãe dizia que não tinha mais idade pra correr com os meninos da rua, mas ela não podia beijá-los também. Não era permitido que roesse as unhas, mas também não podia pintá-las. Podia usar sutiã, mas nem pensar em blusa com decote. A parte boa ela não podia aproveitar, só sobravam as ruins. Entre essas ultimas estava: brincar com meninas.

Todas as tardes se reuniam na casa de uma delas. As mães faziam bolos de chocolate, biscoitos ou cachorros quentes. Chás com gosto de capim servidos em xícaras pequenas demais ou refrigerantes sem açúcar.

Sentavam-se no chão do quarto, com a porta fechada, “pra mãe não ouvir”. Ouvir o que? Tudo era tão chato!

Meninas são chatas! Só sabem falar dos artistas da novela e dos meninos da rua. Os artistas de novela eram pessoas que ela nunca conheceria e os meninos da rua ela conhecia desde que nasceu. Qual era a graça nesses assuntos, afinal? Então, passava as tardes sem falar nada. Respondendo, apenas, ao que lhe era perguntado.

Todas carregavam sempre dentro da mochila cor de rosa, um diário ultra-secreto. A mãe comprara um pra ela também e, de fato, ela o carregava para cima e para baixo, como mandava a etiqueta. Mas se perguntava o que as colegas escreviam de tão secreto neles. O dela estava vazio. Não escrevera nem uma linha sequer. Tudo era tão falso!

Um dia discutiam sobre que profissão seguiriam quando fossem adultas. Pra que se preocupar com isso agora? Todas queriam ser modelos, atrizes ou executivas que andassem de terno e pastas de couro. Ela mal ouvia a conversa, perdida em seus próprios pensamentos. Até que alguém a cutucou e repetiu a pergunta. Ela respondeu sem hesitar: “Eu? Vou ser uma daquelas mulheres que vendem jóias na televisão.”

As amigas deram risadinhas e não entenderam qual era a graça em não mostrar o rosto. Se era pra estar na TV, que fosse beijando galã ou com vestidos de gala. E se era pra usar jóias, queriam comprá-las, não vendê-las. Mais uma vez, as meninas a acharam esquisita, mas não perguntaram a ela o porquê da escolha. Voltaram a falar de meninos, nem sequer ouviram quando ela disse baixinho: “Pelo menos, eu poderia usar esmalte!”

Azeite de oliva

Hoje senti saudades tuas.

A tarde de sábado já ia pela metade e, deitada em minha cama, lia um livro. O sol estava brilhando do lado de fora, convidando para um passeio. Como se adivinhassem meus pensamentos, o celular tocou. Com algum esforço o resgatei do meio do edredom de casal que me envolvia. Justamente para tomar um chimarrão no parque, é que me convidavam. Resolvi recusar, minha sede era outra.

Indo na contramão do que devia fazer, desliguei o celular, fechei a janela e fui até a prateleira em busca do estojo xadrez azul. Voltei a me enrolar nas grossas cobertas.

Acomodei uma almofada nas costas, abri o laptop e procurei o DVD no meio dos outros. Quantas vezes fizera isso em outro quarto, em outra pilha gigantesca de CDs sem título idênticos àqueles?

Procurei por um em específico. O que continha em sua superfície, uma letra meio torta e meio infantil, rabiscada com caneta preta. Aquela mesma caneta que anos atrás, raptaste da minha bolsa. Não sei pra que a queria, já que nunca nomeava teus CDs. Talvez de tanto eu insistir para que o fizesse, este estava com o título do filme que gravaste para assistirmos.

Em tardes exatamente como esta, frias e ensolaradas de julho. Tu acomodavas minhas costas em teu peito, debaixo das cobertas com uma bacia de pipocas. Tão confortável eu ficava que, inúmeras vezes, dormia antes do filme chegar ao final. Com este não foi diferente. Engraçado era acordar a tempo de te ver desligar a TV, irritado com meu descaso.

Dessa vez eu o veria inteiro. Não tenho o calor gostoso de teu corpo a me distrair das cenas vibrantes na tela. Nem teu cheiro tão familiar que ainda o sinto, vez ou outra, em meio a sonhos. Também não posso me perder nos teus olhos azuis a colocar, cuidadosamente, minha cabeça ao teu lado no travesseiro. Enquanto, com a voz meio pastosa, chama baixinho de “minha guriazinha”.

Só percebi que o filme terminara ao ouvir a trilha sonora aumentar de volume. Quando dei por mim, as letras brancas dos créditos subiam rapidamente na tela. Ao me perder em devaneios, adormeci. Retirei o DVD e o guardei no estojo.

Fechei o laptop, irritada com meu descaso. Enquanto eu lembrasse teus detalhes, nunca conseguiria prestar atenção nos filmes. Levantei da cama quente e fui até a cozinha fazer uma salada de tomate, só com sal e azeite de oliva. Eu nem gosto de azeite, mas hoje eu senti saudades tuas.

Fada dos sonhos

Ela o observou por uns instantes, dormindo tranquilamente sob os lençóis. O sol escapava para dentro do quarto através das finas cortinas brancas, emoldurando-lhe o rosto e fazendo brilhar o cabelo loiro sobre o travesseiro. Tão relaxado. Quase infantil era o modo como seus pulmões se enchiam com o ar quente da manhã de verão.

Conforme ela chegou perto da cama em que, vezes sem fim, dormira aconchegada nos braços dele, pode ver o sol brilhar no loiro de outros cabelos. Não pode ver o rosto de sua dona, já que estava encoberto por seu braço, mas conseguiu definir uma pequena tatuagem de fada na escápula direita.

Sentiu um desconforto no estômago, como se um balão de ar tivesse sido inflado dentro dele até explodir. Somente tomou conhecimento do que acontecia quando um gosto amargo lhe subiu pela garganta. Ela correu para a porta da rua, batendo-a atrás de si.

Ele acordou com um barulho!

Parecia que alguém havia deixado algo cair, devia ser no apartamento de cima. O vizinho sempre deixava coisas caírem. Virou-se para observar o corpo da mulher deitada a seu lado. Nossa, como era linda! Abraçou o corpo pequeno e ela se aconchegou na curva de seu braço, parecia nem ter notado. Dormia profundamente.

Ele ficou ali quieto só sentindo o cheiro da pele, a textura do cabelo, ouvindo a respiração lenta e profunda. Tão tranqüila, dormindo entre seus braços e enrodilhada nos lençóis. Certamente o barulho não a acordara.

Algum tempo se passou até que ela se remexeu, suspirou e abriu um sorriso. Virou seu rosto para ele, tentando se desvencilhar dos enormes lençóis que a cobriam tão bem, que era quase impossível escapar deles. Ele sorriu também e a ajudou. Ficaram ali abraçados, de olhos fechados até que ela disse, com a voz rouca de quem acorda:

– Tive um sonho estranho essa noite. Sonhei que eu entrava aqui e tinha uma loira com uma tatuagem de fada no ombro. E vocês dormiam tão tranqüilos. Fiquei tão chateada que só consegui correr.

– É mesmo? Que sonho bobo… Impossível!

– Também achei, meu amor. Ainda bem que era só sonho. Não acho que sejas capaz de trazer uma mulher até…

– Não era fada… Era unicórnio!

– O que?!

Velhas virgens

Elas eram duas.

A primeira se orgulhava de não ser só mais um “hímen rompido”. Era algo que guardava como se fosse uma jóia rara. Ela era do tempo em que meninas usavam fitas no cabelo e as senhoras saias nos joelhos. A segunda também tinha um orgulho, mas diferente da outra, gostava de dizer que era insaciável. Paixão não lhe faltava, era algo como um dom, um talento.

A primeira conheceu um jovem de chapéu panamá e cravo na lapela, que lhe roubou o coração e o pensamento. Era para ele que se guardara e se guardava há 60 anos e, mesmo, quando lhe piscou o olho esquerdo, virou-lhe as costas e sumiu com o violão a tiracolo. Ela nunca deixou que lhe tocassem.

A segunda gostava de toques, era uma espécie de cleptomaníaca de pensamentos. Nunca passava mais do que duas noites com o mesmo homem, achava que seu conhecimento a respeito da anatomia masculina devia ser praticado. Várias foram as ofertas de casamento, mas não havia motivo forte o suficiente para restringir seu leque de possibilidades, com cada um deles aprendera e ensinara algo novo. Além do que, os homens têm a mania de querer tudo pra si e ela queria partilhar o que sabia.

Poderia lhes desfiar as memórias de cada uma, mas seria monótono… A primeira a sonhar todo dia com um único beijo no portão e a outra sem dormir uma noite inteira por mais de 40 anos. Sempre a mesma rotina… Tudo igual e tão diferente!

Hoje, as duas moram juntas, cada qual a seu modo, convivendo harmoniosamente. Só tem uma a outra e o bingo dos sábados à tarde. Ambas sem saber o que é o amor, mas isso não as incomoda. Nenhuma sabe o que perdeu…

Eram duas velhas virgens!

Segunda chance

Pensou duas vezes se atendia ou deixava chamar. Na tela do celular um nome que há muito tempo não via. Um alguém de um passado tão distante que nem parecia nessa vida. Um antigo amor, de uma época em que não se precisava pensar nas contas do fim do mês, na roupa para lavar no fim-de-semana ou nos relatórios para o fim do dia.

O celular tocava. Do outro lado da linha, uma voz doce e profunda que ainda lhe arrepiava a nuca. A voz que cantara em seu ouvido, anos atrás.

Pode sentir o cheiro da camiseta grande demais para o corpo magricela. Sentiu a força das mãos a lhe comprimir as costas e os lábios macios em seu pescoço.

Foram noites inteiras se deixando levar pela música alta, sem ver quem ou o que os rodeava. Só o calor de seus corpos e a vaga idéia de estarem em local público.

Pensou duas vezes se aceitava o convite ou dava uma desculpa qualquer. Uma conversa rápida, tímida e um pedido urgente, mas velado. Queria sair com ela pra um hambúrguer com refrigerante, como nos velhos tempos.

Não sabia, exatamente, se queria que as horas passassem rápido, só para acabar com a agonia de não saber muito bem o que dizer ou se queria que demorassem muito, adiando a mesma agonia. Quase podia ver os grandes olhos castanhos com cílios longos piscando pra ela e aquela risada meio rouca, que era um charme. Por que foi que nos separamos mesmo?

Pensou duas vezes se seguia a dieta ou pedia o hambúrguer com fritas e refrigerante duplo. Decidiu pelos velhos tempos! Agora ela podia ver que os 8 anos passados, os mudaram bastante. Ela não era mais a menina animada de unhas azuis e jeans rasgados. Ele não era mais o vocalista da banda do segundo grau de gel no cabelo e olhos brilhantes.

Ficou a analisá-lo enquanto mordia seu hambúrguer. Ganhara corpo de homem, cultivava uma barba bem aparada e o cabelo escuro estava meio desgrenhado, mas a voz forte estava ainda melhor. Conversavam banalidades sobre trabalho, cachorros e a política externa. Nada muito pessoal, tudo tão constrangedor.

Pensou duas vezes se chamava um táxi ou aceitava a carona. Não sabia exatamente se queria que os minutos intermináveis até seu apartamento acabassem com um simples “beijo e me liga” ou com um “se liga e me beija”. Decidiu pelos velhos tempos! Por que foi que nos separamos mesmo?

Eles. Os outros e nós mesmos!

Eles aproveitavam o fim de semana como se fosse o último. Trancafiados num quarto, levantando da cama somente pra comer e tomar banhos.  Muitos banhos por dia. Nem o ar condicionado foi suficiente pra tanta saudade.

Ela, morena mignon do sul, ele 1,90 m de caracóis negros do norte. Hoje se encontraram no meio do caminho. Conheceram-se meio sem querer, tempos atrás.  Ele meio sem jeito, ela meio sem-vergonha.  Ele muito organizado, ela muito desastrada. Ele pensante, ela vivente. Errantes!

Quem precisa da metade da laranja?

Beijos, abraços, apertos de mãos. Sussurros ao pé do ouvido, promessas de joelhos, conversas pelos cotovelos. O corpo fala por si. Dois corpos com sextos sentidos. Nem os cinco dias foram suficientes pra tanta saudade.

Tecnologia que aproxima e afasta. Celulares a tocar, mensageiros a galopar. Sorrisos que ninguém vê, idéias que ninguém percebe. Ele judeu, ela do mundo. Opostos que se distanciam, pólos que se separam. Ele papel passado, ela abraço apertado. Contrastes!

Ela jazz, ele heavy metal. Ela fogo, ele combustível. Ela mulher fisiológica, ele homem cálculo. Ele planejando, ela distraindo. Ele desejando, ela querendo. Ela tateando, ele cheirando.  Ela imaginando, ele ouvindo. Eles degustando. Ela noturna, ele vespertino. Ele fogo, ela combustível. Nem todas as analogias são suficientes pra tanta saudade.

De volta cada um pra seu canto, sozinhos a se lamentar. Seguindo seus caminhos, direção opostas, idéias tão igualmente diferentes. Voltar à rotina, levantar cedo ou dormir tarde, trabalhar ou escrever, diversão ou não. Tão normal, tão comum. Ela o viu dobrando a esquina, ele a ouviu na mesa ao lado. Miragens!

Ele virgem no alto. Guitarras distorcidas no palco, loira no braço, cerveja na mão. Vontades não sabem dizer não. Ela peixe no litoral. Saxofone no home theater, loiro na banheira, cereja na taça. Vontades não pedem permissão. Ele pra lá, ela pra cá. Sopra o vento do leste e desce o sol a oeste. Nem todos os outros do mundo serão suficientes para tanta saudade.